É possível evitar relacionamentos tóxicos?

É possível evitar relacionamentos tóxicos?

Por: Renata Bento. Psicanalista – Psicóloga. Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Membro da International Psychoanalytical Association – UK.Membro da Federación Psicoanalítica de América Latina – Fepal. Especialização em Psicologia clínica com criança PUC-RJ. Perita ad hoc do TJ/Rj – RJ. Assistente Técnica em processo judicial. Especialista em família, adulto e adolescente.

Relacionamentos tóxicos não surgem do nada. Eles se constroem a partir de dinâmicas emocionais inconscientes, muitas vezes enraizadas em experiências precoces. Para evitá-los, não basta apenas reconhecer sinais de alerta no outro; é essencial compreender nossos próprios padrões afetivos. Como a gente se relaciona? O que sentimos quando estamos envolvidos com alguém?

Antes de procurar um relacionamento saudável, seria importante perguntar-se: quais são minhas repetições inconscientes? Muitas vezes, escolhemos parceiros que reforçam padrões familiares disfuncionais, mesmo que isso nos faça sofrer.  Se alguém se vê sempre envolvido em relações marcadas por controle, desprezo ou dependência, talvez seja hora de investigar por que esse tipo de vínculo se faz presente com tanta frequência. Tudo indica que se trata de uma repetição de padrão, que não está sendo percebida. Algo inconsciente se engancha no inconsciente do outro, e provavelmente não se trata de algo novo, mas familiar, já estava ali.

Relacionamentos disfuncionais costumam dar sinais logo no início, mas a tendência é racionalizar, negar ou minimizar o incômodo. Algumas pistas comuns: invasão de limites, manipulação sutil, desqualificação das emoções e uma sensação persistente de culpa ou insegurança. Quando algo parece errado, é importante escutar essa impressão e não sufocá-la com justificativas.

Muitas pessoas permanecem em relações destrutivas por medo de ficar sozinhas ou por culpa de abandonar o outro. Pensamentos como “se eu for embora, serei uma pessoa ruim” ou “se ele mudar, tudo pode melhorar”, surgem como obstáculo ao rompimento da relação. Aqui, cabe perguntar: o que em mim se sente responsável pelo sofrimento do outro? Ou, por que preciso na minha vida dessa relação que mais parece uma “ralação”? Esse tipo de reflexão pode revelar várias dinâmicas, inclusive a de dependência emocional. Quando amamos ficamos dependentes e vulneráveis, mas não deve ser um aprisionamento.

Saber dizer “não” é fundamental. Limites não são muros para afastar o outro, mas contornos que protegem a integridade psíquica. Se alguém não respeita seus limites, isso não é um desafio a ser vencido, mas um sinal claro de que a relação pode ser prejudicial. Afinal uma relação que atravessa os limites do outro, sufoca a existência singular, e cada vez será mais difícil a convivência. Vale a máxima, “antes só do que mal acompanhado(a)”. Estar mal acompanhado (a) dá muito trabalho, atrapalha a vida.

Evitar relacionamentos tóxicos não é apenas uma questão de identificar perfis problemáticos no outro, mas de compreender por que, em algum nível, nos permitimos entrar ou permanecer neles. O processo analítico ajuda a reconhecer padrões, elaborar conflitos internos e fortalecer a autoestima, tornando possível escolhas mais conscientes e saudáveis. Há duplas que funcionam melhores conosco, portanto, não é necessário ter pressa para se relacionar, conhecer a sí mesmo e buscar afinidades são atitudes saudáveis.

Em última instância, um relacionamento deve ser um espaço de crescimento e acolhimento, não de sofrimento crônico. Quando nos conhecemos melhor, passamos a escolher a partir do desejo genuíno, e não da repetição de dores antigas.

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